ENTREVISTA

Ensino precário prejudica cultura da proteção radiológica, mas especialista considera possível mudar a realidade

Naum Carlos
25/02/2019
ENTREVISTA

Se você perguntar para qualquer profissional que trabalha na operação de equipamentos emissores de radiação ionizante, a necessidade da radioproteção é unanimidade: todas as pessoas sabem que a exposição aos raios X sem um rigoroso controle das doses pode causar danos biológicos e, portanto, é necessário conhecer e usar os recursos que garantem a proteção radiológica, tanto do profissional quanto do paciente. Mas, na prática, a realidade é outra: essa disciplina ocupa pouco espaço na formação dos profissionais e sua aplicação no mercado de trabalho ainda é insipiente. Sobre esse quadro paradigmático, conversamos com o presidente da Comissão Nacional de Radioproteção e Dosimetria (CNRD), Lucas Gomes Padilha Filho. “Já encontrei profissionais, inclusive médicos, que não tinham a menor noção sobre radioproteção”, diz. Nosso entrevistado é especialista em física do radiodiagnóstico e mestre em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Como o senhor explicaria o que é radiação ionizante para quem nunca ouviu falar no assunto?
Imagine um círculo. Imaginou? Agora, sobre a linha do círculo coloque algumas bolas de gude. Lance uma outra bola de gude em direção as que estão sobre o círculo. Se você acertou o seu possível alvo e retirou a bola de gude da circunferência, criou-se uma região vazia. Isso é ionização. Deste modo, podemos comparar este modelo simplificado de ionização com o que ocorre na natureza. Para se retirar um elétron é necessário ter energia suficiente para ionizar átomos e moléculas, ou seja, é necessário ser capaz de arrancar um elétron de um átomo ou molécula.

A radiação pode fazer mal? Quais os riscos para a segurança e para a saúde de profissionais e pacientes que entram em contato com os raios X?
A radiação pode, sim, fazer mal, caso não seja utilizada de forma correta. A legislação brasileira exige que todos os pedidos de exames radiológicos sejam justificados, que o processo seja otimizado e que se tenham limites para doses de exposição dos indivíduos ocupacionalmente expostos (IOE). Mas não há limite para o paciente, desde que sejam os pedidos de exames justificados por médico ou dentista. Lembro que nossos equipamentos devem passar por testes de aceitação, realizar controle de qualidade periódicos, garantindo que as doses sejam tão baixas quanto exequível, mas que tenham qualidade necessária para o diagnóstico. Quando você ioniza, cria um desequilíbrio eletrônico no átomo ionizado. Dependendo da quantidade de átomos ionizados e sua importância na formação das células, moléculas e tecidos, podem desencadear reações desde uma simples morte celular, até desenvolvimento de tumores, ou até mesmo a morte do tecido e ou órgãos, acarretando riscos à saúde do paciente e do IOE. Em exames de raios X geral (tórax, extremidades, etc.) os riscos são muito pequenos. O riscos maiores são nos exames de intervenções e tomografia computadorizada, pois as doses são mais elevadas. Para os profissionais que trabalham atrás de biombos, suas doses são bem insignificantes. Nossos dosímetros não conseguem registrar essas doses, por serem minimizadas pelos biombos, que devem ser instalados corretamente e possuir seus cálculos de blindagens adequados à carga de trabalho da sala de raios X.

Como o senhor avalia a situação da Radiologia no Brasil atualmente?
Com descoberta dos raios X, em 8 de novembro de 1895, pelo o físico alemão Wilhelm Conrad Roentgen, a medicina muda sua concepção do diagnóstico e, em 1897, o Brasil inicia sua história com a instalação do primeiro aparelho de raios X, em Formiga, Minas Gerais, fabricado pela Siemens, levado por José Carlos Ferreira Pires. Se pudéssemos voltar na história, diríamos que 125 anos atrás, estávamos na crista da onda da nova tecnologia. Percebe-se que a evolução tecnológica hoje é muito rápida, em meses novos equipamentos surgem, bem como melhorias significativas no diagnóstico de doenças com imagens mais nítidas. A Radiologia precisa de profissionais mais envolvidos, diferenciados e que procurem acompanhar a velocidade das evoluções tecnológicas. Depois de 125 anos, percebe-se que a nossa diferença tecnológica não é de dois anos, mas sim de dez anos ou mais. O nosso país ainda importa tecnologia, caixas fechadas, com segredos a desvendar. Nossas fábricas são montadoras, nossa tecnologia é importada e nossos pesquisadores estão deixando o nosso lindo Brasil. Precisamos criar uma cultura da qualidade e de radioproteção. Ainda hoje vejo profissionais que não tem a menor ideia de como usar ou interpretar um fantom. A Medicina, que dispõe de instrumentos mais precisos para realização de diagnósticos, precisa que todos nós, profissionais envolvidos da área radiológica, sejamos diferenciados.


Como a CNRD pode contribuir para criar um cultura de radioproteção no Brasil?
A ideia da CNRD é manter as discussões abertas sobre a radioproteção, buscando dentro de nossa sociedade aspectos que nos levem a desenvolver métodos de informação, auxiliando os Conselhos de Radiologia na criação de metodologias e instrumentos de divulgação da radioproteção, bem como trazer para nossos debates profissionais e órgãos que possam nos auxiliar neste desenvolvimento.



Como levar a cultura da radioproteção para outros profissionais, como médicos e enfermeiros, por exemplo?

Quando você leva a cultura para nossos profissionais, cria-se uma reação em cadeia, pois estamos dentro de um ambiente multidisciplinar e em médio a longo prazo, essa interação e as discussões serão desenvolvidas em todos ambientes da radiologia. É um processo de cultura que deverá ser constante e bem longo.

Falta atenção da academia para a área da radioproteção? 
Com certeza, falta. Em 1999, quando defendi minha dissertação de mestrado, em meus estudos dos currículos das escolas de formação de cirurgiões-dentistas do eixo Rio de Janeiro e São Paulo, pude ver que eram dedicadas apenas duas horas à radioproteção durante formação desses profissionais, o que não é diferente na formação dos médicos. Os profissionais que mais tem contato e maior tempo dedicado aos estudos da radioproteção ainda são os físicos-médicos e os tecnólogos em radiologia.

Quais são os obstáculos para aprendizagem da proteção radiológica e para o aproveitamento das tecnologias disponíveis? 
Na indústria existe a cultura de investir na manutenção preventiva para evitar falhas e quebras de equipamentos, trocando os mesmos quando chegam aos seus limites de uso e da vida média dos aparelhos, pois uma fábrica parada por erros ou por quebras de equipamentos gera custos altíssimos e muitos prejuízos. Na área da saúde, nossos gestores não enxergam desta forma: não realizam controles de qualidade. Só fazem manutenção quando os equipamentos apresentam erros ou param de funcionar. Nossos profissionais envolvidos na execução dos exames não têm a menor noção de controle de qualidade e/ou controle de dose e não se interessam em participar destes controles quando estes acontecem em suas unidades. Não há estímulo do governo para desenvolvimento de novas tecnologias e a que temos é toda importada. Esses descasos são os nossos maiores obstáculos.

O Brasil é capaz de inovar nesse sentido e de fazer melhor uso das tecnologias de radioproteção? 
Com certeza o Brasil é capaz de inovar. Nossas universidades têm os melhores profissionais, mas é necessário maiores investimentos e maior dedicação ao tema, além de uma maior participação da área de saúde no processo.